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23 de dezembro de 2025
KRAMPUS

 O SENHOR DO YULE




As mitologias pagãs são muito ricas e interessantes. A relação dos seres humanos com a terra e seus recursos era de muito respeito e reverência no período pré-cristão, o que vemos depois disso, foi a humanidade enxergando a terra e seus recursos como algo de direito, que pode ser usada e abusada porque esta foi “dada” aos homens por Deus… O artista multitalentoso, Brom, inspirado pela curiosidade de sua esposa, descobriu uma antiga entidade que punia os maus e presenteava os bons, além de ajudar a espalhar a vida após os longos e duros meses de inverno, esse é Krampus, o senhor do Yule

Para aqueles que não sabem, não, o Natal não é o “aniversário” de Jesus, não mesmo. Na verdade, historicamente, o Natal é uma versão cristianizada de uma celebração pagã chamada Yule, na qual até hoje pagãos celebram como o solstício de inverno, momento no qual o frio do inverno dá lugar à luz e a esperança da primavera vindoura. 

Em Krampus, o senhor do Yule, vamos acompanhar a luta da personagem-título a fim de desmascarar e destronar o Papai Noel de seu reinado de mentiras e total desequilíbrio e desrespeito com a terra que nos nutre e protege. Ao lado de seus seguidores, os belsnickels, ele vai fazer de tudo para trazer de volta a tradição do Yuletide e acabar com a palhaçada criada por seu inimigo, obviamente, isso não será nada fácil... 

Além de Krampus, o senhor do Yule, acompanhamos também o protagonista Jesse, um músico fracassado, que não acredita em si mesmo, acabou de perder a esposa por causa disso, está morando em um trailer, sem emprego, sem dinheiro, sem moral, sem nada, seu desespero é tamanho que ele atenta contra a própria vida, mas, no último minuto, desiste e vê uma cena que vai mudar a sua vida para sempre: um homem "fantasiado" de Papai Noel corre e tem em seu encalço algumas figuras demoníacas que tentam matá-lo a todo custo. No meio da confusão, o saco do Papai Noel acaba caindo dentro do trailer de Jesse e ele descobre ser este um objeto mágico e muito poderoso. 

A partir desse ponto, nosso protagonista vai entrar em um vórtice de problemas e mais problemas, pois, se a vida dele já estava acabada, adicione a isso um envolvimento com gângsteres, o fato de sua ex-esposa estar “namorando” com um policial corrupto tão perigoso quanto o chefe da máfia local, e uma entidade poderosa, Krampus, o senhor do Yule, estar atrás dele para pegar seu saco mágico de volta… 

Brom mostra ter feito uma pesquisa extensa sobre as mitologias que envolvem essas entidades (Krampus e Papai Noel) e ele criou sua própria versão, muito interessante e verossímil, é quase impossível largar esse livro, tudo é tão interessante, tanto a parte mitológica, sendo Krampus e Papai Noel entidades nórdicas advindas do Ragnarök, quanto a aventura de Jesse em busca de recuperar a sua família e encontrar a si mesmo. 

Krampus, o senhor do Yule, é um livro de mais de 400 páginas, mas que você lê muito rápido, tamanha a fluidez narrativa de Brom. A edição da DarkSide ficou muito linda e impactante: capa dura, com uma diagramação ótima e com ilustrações belíssimas e um pouco perturbadoras do autor que também é ilustrador. Com certeza, se você é do tipo que gosta de uma boa subversão de tradições, esse livro é para você! E um Feliz Natal/Yuletide para vocês e lembrem-se: sejam bons e deixem doces nos seus sapatos como oferenda para Krampus, pois, caso não o façam, o castigo será cruel…


20 de novembro de 2025
O Ancião que Saiu pela Janela e Desapareceu

 Olá, pessoal! Samu aqui!





Hoje venho falar sobre O Ancião que Saiu pela Janela e Desapareceu, do autor Jonas Jonasson. Esse livro se tornou meu favorito de todas as leituras desse ano, pois a narrativa me cativou desde o início. Já aconteceu de você se apaixonar por um livro logo nos primeiros capítulos? Pois comigo foi bem assim e vou comentar aqui o porquê.


Para começar, Jonas Jonasson criou um protagonista extremamente carismático: um exemplar de ser humano muito peculiar chamado Allan Karlsson. Sendo assim, esse livro conta toda a história de vida desse personagem, desde sua infância até a idade adulta e velhice. A primeira peculiaridade de Allan está no fato de ele completar 100 anos de idade logo no início da narrativa, contudo, ele não quer participar da comemoração e, portanto, decide fugir da casa de repouso onde mora (por sinal, Allan foge pulando a janela).


Essa fuga inusitada desencadeará na vida do nosso protagonista centenário uma série de situações das mais tresloucadas: ele vai realizar um roubo mirabolante, se envolver com pessoas de caráter duvidoso, fazer uma road trip por toda a Suécia fugindo da polícia e ainda causar umas explosões. Sério, as enrascadas que esse simpático velhinho se mete são tão absurdas que chegam até a envolver um elefante de circo.


Além disso, os capítulos dessa história intercalam duas linhas temporais, alternando entre o presente e o passado do Allan. Deste modo, aos poucos nós vamos descobrindo fatos incríveis sobre a vida do nosso protagonista. Digamos que ele teve uma vida bastante peculiar, talvez ele fosse a pessoa certa no lugar certo (ou errado, dependendo do ponto de vista). O fato é que Allan aprendeu desde criança a arte de criar explosivos e, levando em consideração a época em que isso aconteceu (período das Guerras Mundiais, Guerra Civil Espanhola, Guerra Fria e etc), esse conhecimento rendeu a ele posições de destaque em diversos momentos de sua história.


No decorrer da vida, Allan Karlsson vai conhecer pessoalmente diversas personalidades históricas, tais como o general Franco, o presidente Truman, Mao Tsé Tung, Stalin, Kim Il-sung entre vários outros. Também vai participar de diversos eventos históricos do século XX, ajudando (ou não) os acontecimentos destes. Além do mais, a forma como o autor Jonas Jonasson descreve todos esses eventos, a forma inusitada como a trama é desenvolvida, arranca muitas risadas do leitor. O tom sarcástico e cômico desse livro até hoje só encontrei em O Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams. Sendo assim, recomendo muito a leitura de O Ancião que Saiu pela Janela e Desapareceu, principalmente se você gostar de história mundial e de narrativas policiais com leves pitadas de nonsense (talvez não tão leves assim).


24 de junho de 2025
AZUL É A COR MAIS QUENTE

 



    Conheci Azul é a cor mais quente através da apelativa adaptação cinematográfica de 2013. Não gostei do filme porque achei que as meninas foram muito objetificadas, mas queria conhecer a fonte da história. Como eu sou bem marcha lenta e nesse meio tempo fui engolida pela vida adulta, acabei não correndo atrás dessa HQ. No começo do ano passado, porém, meu marido (vulgo Samu) a comprou  e pude lê-la,  no final do ano, e constatei que a história de Clementine e Emma é muito linda e delicada, e muito, muito triste.
    Em Azul é a cor mais quente acompanhamos Clementine, uma adolescente de 16 anos e Emma, uma jovem universitária; a menina não entende os sentimentos que tem pela garota mais velha de vibrantes cabelos azuis e isso a atormenta muito, até porque seus pais são bem conservadores, além disso, Clem é bem tímida e reservada, começa a sair com um garoto e percebe não sentir por ele o que uma garota hétero sente por um cara quando está afim dele, já quando pensa em Emma... É avassalador. 
    Ao longo dos anos a amizade das duas  vai se desenvolvendo, mas além de Clem ter pais homofóbicos  e sentir na pele esse preconceito na escola só porque o pessoal sabe de sua amizade com Emma, uma garota abertamente lésbica, ainda tem o fato desta última estar em um relacionamento abusivo (de ambas as partes, que fique claro) com Sabine, há muitos anos. Emma também se apaixonou por Clem desde a primeira vez em que se viram, contudo, ela se sente presa à Sabine por causa de um sentimento equívoco de gratidão e, mesmo já tendo sido traída pela mesma, é difícil terminar essa relação. 
    Com o tempo, Clem e Emma se acertam, entretanto, isso não vem sem um preço: já falei acima que os pais da protagonista são homofóbicos, né... pois bem, eles não vão aceitar nem um pouco que sua única filha se relacione com outra mulher... e isso vai gerar em Clementine uma tristeza profunda. O preconceito contra a comunidade LGBTQIAP+ torna a vida de Clem muito, muito difícil, e acaba, ao longo dos anos,  eclipsando de alguma forma a felicidade que ela sentia por estar com a pessoa que amava, Emma. É desolador ver como a rejeição dos pais machuca a jovem demais, ao ponto de, na vida adulta, ela continuar com essa ferida aberta. 
    Azul é a cor mais quente, infelizmente, é bem curtinha e pode ser lida em uma tarde, mas não se engane, você vai carregar essa leitura por um bom tempo e vai terminá-la com uma melancolia incomoda, um incômodo genuíno de quem gostaria que essa história de amor não tivesse um ponto final.

4 de fevereiro de 2025
NUNCA MINTA, de Freida McFadden

 E como a verdade pode ser mil vezes pior do que uma mentira bem contada...




Imagine a situação: você é uma mulher recém-casada com um homem que não fala sobre a família, na verdade, no casamento de vocês não havia quase ninguém do lado dele, ele não tem amigos e o seus dizem que ele é uma grande red flag, mas mesmo assim você se casa com ele muito rápido. Vocês estão apaixonados e ele prospera no trabalho, apesar de você estar desempregada, e então decidem comprar uma casa maior, afinal, vocês querem ter uma família. Chegando lá, vocês vão pegos de surpresa por uma tempestade de neve e ficam presos nessa casa, que está à venda porque a antiga dona desapareceu há três anos e, aparentemente, vocês não estão sozinhos lá… 


Essa é a premissa de Nunca minta, primeiro livro que li da autora Freida McFadden, um nome muito promissor do gênero thriller atualmente. Quem me apresentou a ela foi o Samu. Ele entrou em uma leitura compartilhada e essa foi a obra escolhida, ele leu e insistiu para que eu lesse também, pois esse é o tipo de história que faz sua cabeça explodir. 

Pois bem, fiz a leitura, mas confesso não ter me engajado rapidamente com o relato da recém-casada Tricia e da desaparecida psiquiatra Doutora Adrienne Hale, um tenho esse problema em ler em inglês, na minha cabeça, quando leio nessa língua, estou estudando, sabe? Foi por esse motivo que demorei a mergulhar nessa história, até porque a escrita de Freida McFadden é eletrizante e objetiva, a mulher não fica enrolando não, tudo o que é escrito, será usado à frente, não há excessos, todas as informações são relevantes, contudo, não te preparam para os plot twists da trama, porque sim, há mais de um! 

Em Nunca minta, Freida McFadden nos apresenta ao enredo, alternando capítulos no presente, nos quais Tricia está pirando dentro de uma casa imensa, na qual ela sente que não está sozinha com seu marido, e ele, de forma paternalista, fala que ela está sendo exagerada e paranóica e que não há ninguém lá além deles… Será mesmo? Com capítulos do passado, nos quais a Doutora Adrienne ainda não está desaparecida e vemos como ela lidava com seus pacientes e como um deles se tornou uma pedra em seu sapato, perseguindo-a e a ameaçando com um vídeo comprometedor dela… E tendo acesso, juntamente com a curiosa Tricia, à algumas gravações das sessões de terapia que a doutora gravava sem a autorização de seus pacientes, algo não muito profissional e bem antiético, não é mesmo? 

Com essas informações, você já deve ter percebido que Freida McFadden cria personagens bem ambíguos e não muito cativantes, logo, nós desconfiamos bastante de quase todos eles e antipatizamos com a maioria também… E como dito, anteriormente, nada, absolutamente nada te prepara para os plot twists de Nunca minta. Sério. Você pode pensar nas mais loucas alternativas para o que aconteceu com a doutora: Morreu? Desapareceu apenas? Qual foi a motivação? Nada, repito, nada do que você pensar vai chegar perto da verdade…

Acho desnecessário dizer que amei essa leitura e, tal como aconteceu com A última festa, passei uma madrugada em claro lendo os últimos capítulos de Nunca minta e “pirei muito na batatinha” com o final, agora, quero ler outros romances de Freida McFadden, virei fã!


10 de dezembro de 2024
Trilogia WinterNight

aka 
Melhor trilogia de fantasia que li até hoje! 

        Que eu sou uma pessoa facilmente influenciável por capas de livros bonitas já é um fato consumado, mas ficar encantada por uma capa bonita, ler a história e ficar completamente apaixonada por ela a ponto de ler uma trilogia inteira em menos de uma semana, para mim, isso é novidade! E foi exatamente o que aconteceu entre mim e a incrível Trilogia Winternight, da autora estadunidense Katherine Arden
           Publicado aqui no Brasil em 2017, O Urso e o Rouxinol é o primeiro volume da Trilogia Winternight e traz o início da trajetória de nossa protagonista, Vasilisa Petrovna, uma garota cheia de mistérios e poderes. Ao nascer, Vasya perde a mãe, que não sobrevive ao parto, e é criada pelo pai, com a ajuda da ama Dunya e de seus irmãos mais velhos, Kolya, Sasha, Olga e Alyosha em uma Rússica medieval marcada por guerras contra os tártaros e disputas de poder entre príncipes na corte. Ao saber que estava grávida, a mãe da menina tem uma premonição de que a criança mudará as vidas de todos no país e por isso, mesmo sabendo que sua morte era quase certa, ela decide ter a última filha; Apesar de ser órfã, Vasya cresce até certo ponto feliz e com muita liberdade, sendo filha de um boiardo (senhor de terras e nobre russo); contudo, em um dia de explorações na floresta, ela acaba encontrando uma figura muito estranha: um homem maltrapilho preso a uma árvore. Ela, em sua inocência infantil, acorda o homem e é a partir daí que tudo em sua vida irá mudar e Vasya experimentará uma série de desventuras e aventuras também. 
        Após o incidente na floresta, o pai de nossa protagonista casa-se com a filha do Grão- Príncipe de Moscou e com ela vem junto um padre muito do maldito; Ambos terão como objetivo de vida transformar a da podre Vasya em um inferno, pois os dois não aceitam a liberdade, segurança e o paganismo que a menina continua a praticar mesmo vivendo em um país que aderiu ao cristianismo ortodoxo. Além disso, Vasya sabe que a crescente descrença nos seres antigos está levando sua terra à ruína e é assim que ela descobre sobre o Urso e sobre seu irmão gêmeo O rei do Inverno. 
        Morozko, aka Rei do Inverno era para Vasya apenas uma figura mitológica, porém ela descobre que ele é real e ainda mais: ela está ligada a ele e ambos precisarão lutar juntos para impedir que o Urso (o maltrapilho preso na árvore) consiga escapar de sua prisão e espalhar o caos e a morte por onde passar. 
        
Se em O urso e o Rouxinol acompanhamos a infância de Vasilisa, em A Menina na Torre, segundo volume da Trilogia Winternight, acompanhamos uma Vasya jovem adulta fugindo de casa após os terríveis acontecimentos do livro anterior, com direito a um ataque de upyri  (vampiros do folclore eslavo) e a morte do pai de seu pai, que se sacrifica para ajudá-la. Durante sua viagem, ela conhece Lady Meia-Noite, uma serva de Baba Yaga (ambas criaturas recorrentes no folclore russo e conhecidas por serem personagens do conto Vasilisa, a Bela), que oferece sua ajuda; além disso, a jovem fica cada dia mais próxima de Morozko, o que perturba a ambos; Para conseguir viajar em paz, se transforma em Vasili e é com esse disfarce que ela adentra os muros de Moscou e lá  vai se deparar com uma sociedade que restringe ainda mais suas mulheres, deixando-as trancadas em torres e vai lutar também contra um terrível feiticeiro, ter muitas perdas e muitas descobertas também.
       
Último volume da trilogia, O Inverno da Bruxa vemos uma Vasya traumatizada, cansada e mais madura, entendendo que para seu povo ter paz e sua terra prosperidade é preciso que haja um verdadeiro equilíbrio entre o Caos, representado pelo Urso, e a Ordem, representada por Morozko. Nesse livro, Katherine Arden se supera ao trazer um desenvolvimento verossímil para o relacionamento entre a protagonista e o Rei do Inverno, além de todos os desdobramentos da guerra contra os tártaros e como a Rússia se tornou um território onde Cristianismo e Paganismo encontraram um equilíbrio em sua coexistência. 
        Essa não se tornou uma de minhas séries literárias de fantasia favoritas por nada. O trabalho de pesquisa feito por Katherine Arden é primoroso! É palpável o quanto essa mulher estudou da história, da cultura medieval e do folclore russo para compor sua narrativa. É mesmo um trabalho maravilhoso e que deve ser lido por todos que, como eu, são apaixonados por contos de fadas e fantasia em geral. Sério, gente, essa leitura é deliciosa, impossível parar de ler até chegar ao fim e ver o resultado de todas as desventuras e aventuras dessa protagonista tão querida que é Vasilisa Petrovna. Eu amei essa experiência de leitura e pretendo reler no inverno do ano que vem. Esses livros representam bem aquele tipo de história que você pode ler todos os anos que sempre será uma aventura incrível todas as vezes. 


24 de maio de 2019
Lua de Larvas - Sally Gardner



     Não é segredo nenhum que eu sou uma verdadeira adoradora do gênero distopia. Gosto muito dessas tramas envolvendo organizações sociais e a tão empolgante e inevitável luta dos indivíduos pela liberdade. Contudo, não escondo também que muitas distopias teen me decepcionaram ao longo dos anos e acabei deixando-as de lado para evitar a fadiga. Felizmente, conheci a narrativa de Lua de Larvas, há algum tempo atrás, anotei a dica e a experiência não poderia ter sido melhor!
     Narrado em primeira pessoa por Standish Treadwell, um garoto de dezesseis anos, Lua de Larvas nos mostra uma realidade ao mesmo tempo familiar e bem diferente da nossa, chegando a ser grotesca. A familiaridade está no fato da história se passar durante o período conhecido como "Corrida Espacial" e a insistente tentativa de levar o homem à Lua. Entretanto, as diferenças são gritantes: a organização social desse país anglófono intitulado Terra Mãe é autocrática. Aparentemente, este sofreu, além da Segunda Guerra Mundial, um conflito civil, pois está quebrado em todos os sentidos. A população vive em condições sub-humanas e é vigiada o tempo todo. Qualquer manifestação contra o regime é brutalmente cessada. Todos vivem com medo. Todos desconfiam de todos.
    Ademais, A Terra Mãe é contrária a todo e qualquer tipo de defeito, o que deixa nosso protagonista na mira do governo, porque ele tem problemas cognitivos, possui heterocromia e seus pais estão desaparecidos por não apoiarem o governo... No momento em que a história começa, além dos pais, ele perdera também seu único e melhor amigo, Hector, que desapareceu juntamente com a família.
Stan sofre muito por causa dessas perdas, pois os amava muito e sempre fora protegido por eles e, agora, era perseguido constantemente por colegas da escola e pelo professor também.
     A narrativa caminha de forma não linear alternando tempo cronológico (presente) e psicológico (flash backs). No primeiro, acompanhamos o protagonista em seu dia-a-dia e vemos como A Terra Mãe é muito cruel, além do anúncio da possível chegada do homem à Lua. No segundo, vemos o passado do garoto, seus pensamentos e planos e descobrimos que as famílias dele e de Hector não estavam na mira do governo à toa, e que eles escondem um segredo que pode mudar os rumos de todo o universo deles.
    A trama de Lua de Larvas é repleta de críticas e simbolismos. O início de cada capítulo é ilustrado pela figura de um rato que vai se modificando e tem relação direta com a o desenvolvimento e até mesmo com o desfecho da trama. Há também um certo quê de representatividade, por causa do modo como a autora retrata o Stan (que claramente tem um grau leve de autismo) e a descoberta da sexualidade.
   Lua de Larvas pode ser categorizado como uma distopia teen por causa da idade de seu narrador protagonista, mas não se assemelha em nada com a superficialidade deste gênero, entregando-nos uma narrativa curta em páginas, porém densa, complexa e verdadeiramente reflexiva.



6 de abril de 2019
O ancião que saiu pela janela e desapareceu - Jonas Jonasson



No dia de seu aniversário de cem anos, o sueco Alan Karlsson decide jogar tudo às favas e pula pela janela da casa de repouso onde vive para pegar de volta sua liberdade, é assim que começa a história de O ancião que saiu pela janela e desapareceu.  Ele só não imaginava que essa ação desencadearia uma série de outras dignas de uma verdadeira odisseia, só que muito mais divertidas de se acompanhar, Homero que nos desculpe a sinceridade... 
O ancião que saiu pela janela e desapareceu é classificado em sua ficha catalográfica meramente como um "romance", contudo, é notória sua semelhança estrutural com as obras Forrest Gump e As Aventuras do Bom Soldado Svejk (já resenhadas por aqui) que é possível classificá-lo também como uma novela satírica tal qual seus antecessores. A narrativa também tem muitas características que beiram o realismo-maravilhoso, pois a forma como Alan Karlsson consegue escapar dos problemas e sua vitalidade em seus mais de cem anos não é algo que se vê todos os dias por ai, porém, tudo isso é tratado de maneira bem natural ao longo do texto, como se fosse tudo comum, até prosaico. 
Por tratar-se de um livro que propõe nos contar o passado nada ortodoxo de seu protagonista, a narrativa trabalha com o tempo cronológico, no qual Alan foge do asilo e acaba sendo perseguido por uma gangue de mafiosos, deixando um grande rastro de sangue e de muita confusão por onde passa; e o tempo psicológico, narrando suas aventuras anteriores, desde o nascimento e infância incomuns na Suécia, até sua ajuda em todos os grandes conflitos mundiais do século XX, tendo participação até na criação da bomba atômica, para vocês terem uma ideia... 
A narração de mais de cem anos de História não seria nada fácil de se acompanhar se não fosse pelo narrador em terceira pessoa irreverente e muito bem humorado, cheio de ironias e tiradas sarcásticas que nos fazem rir e pensar no quão absurda é a vida de Alan, mas, sinceramente, coerência não é a palavra de ordem nesse livro! 
Leitura mais do que recomendada para todos os amantes de História e de boas gargalhadas, O ancião que saiu pela janela e desapareceu é, com certeza, mais um ótimo exemplo de que a literatura sueca tem muito a nos oferecer, desde o terror (vide Deixa Ela Entrar) quanto no humor e na crítica social.

Fica a dica! =D 

30 de janeiro de 2019
Os Meninos da Rua Paulo - Ferenc Mólnar

Mais um livro infanto-juvenil de cortar o coração...



Definitivamente, eu sou uma péssima pessoa para sortear leituras! Há poucas semanas atrás li O Meu Pé de Laranja Lima, um infanto-juvenil muito triste e comovente e, hoje, acabo de terminar a leitura de Os Meninos da Rua Paulo, uma história que conseguiu ser ainda mais trágica! Essa foi a primeira obra do senhor Ferenc Mólnar que tive a oportunidade de ler e o cara já quebrou meu coração!

[…] “Assim, decidiram a luta por motivo semelhante ao que desencadeia as guerras de verdade. Os russos precisavam de mar, por isso atacaram os japoneses. Os camisas vermelhas precisavam de um terreno para jogar pela, e como não havia outro jeito, iam recorrer à guerra. “ […]

Considerado o livro mais famoso da literatura húngara ao redor do mundo, Os Meninos da Rua Paulo, publicado em 1907, narra de maneira metafórica a difícil transição da inocência da infância para as agruras da vida adulta, além de tratar também dos efeitos das guerras constantes no imaginário da população, principalmente, das crianças.
Um grupo de garotos, em sua maioria, de origem humilde que tem como refúgio um terreno abandonado, esses são Os Meninos da Rua Paulo. Lá, comandados pelo mais velho de todos, João Boka, eles acreditam fazer parte de um exército que tem como únicos soldados rasos o pequeno lourinho, Ernesto Nemecsek, e o cachorro do vigia do terreno...
A vida dos meninos transcorria tranquila, até que estes descobrem que o grupo rival os "camisas vermelhas" querem atacá-los para roubar-lhes o espaço de brincadeiras e diversão. Ademais, para surpresa de todos, há um traidor entre eles, capaz de ajudar o inimigo a conquistar seu objetivo vil.
Por ser o único em um posto baixo, Nemecsek decide provar seu valor para o grupo a fim de subir de posição, contudo, ninguém imaginava o quão leal e corajoso era o lourinho, e muito menos as consequências de suas ações...

[…] “Boka fitava com gravidade a própria carteira, e na sua alma de menino pela primeira vez vislumbrou uma vaga ideia do que é, afinal, a vida, da qual todos somos os soldados e os servidores, ora tristes, ora alegres.” […]

Os Meninos da Rua Paulo é uma novela incrivelmente emocionante e cheia de valores e muita honra. O modo como os meninos se tratam, mesmo os inimigos é algo para se espelhar, pois essas crianças são de uma dignidade que falta em muitos adultos!
A escrita de Ferenc Mólnar é linda. Começa de maneira bem tranquila e corriqueira e termina de maneira comovente, deixando uma tristeza grande em nossos corações. Há diversas adaptações da obra para filmes e peças teatrais. Com certeza, esse é o tipo de história infanto-juvenil que também agrada ao público adulto e deve ser lido por todos.

18 de janeiro de 2019
O Meu Pé de Laranja Lima - José Mauro Vasconcelos

Um livro profundamente triste e tocante 



O Meu Pé de Laranja Lima é um livro infanto-juvenil muito conhecido, não apenas aqui no Brasil, como em quase todo o Globo. A influência de José Mauro de Vasconcelos era enorme durante o século passado e muitas de suas obras foram estudadas em grandes universidades pela Europa. Contudo, foi com O Meu Pé de Laranja Lima que ele conseguiu consolidar-se e comover milhões de pessoas com essa tocante história. 
Zezé é um menininho de cinco anos de idade, muito esperto e arteiro, aprende a ler e escrever sozinho e tem uma imaginação fora do comum. Descobrimos ao longo das páginas que ele é pisciano. Se você não entende, ou não se interessa por astrologia, pode achar essa informação desnecessária, mas o menino é o completo arquétipo do signo de peixes: inventivo, sonhador, amoroso, carinhoso, solidário, bem dramático e até mesmo injustiçado... Ele sofre muito na mão dos adultos que não o compreendem e não têm paciência para suas diabruras de criança, e ainda assim permanece sendo bom e generoso com quem sofre mais do que ele. 
Ademais, a família de Zezé passa por um momento muito complicado. Seu pai perdeu o emprego, a mãe e a irmã mais velha precisam trabalhar muito para sustentar a todos, por isso a família se muda para uma casa menor e é lá que nosso protagonista conhece Minguinho, o pé de laranja lima. Apesar de ter sua imaginação fértil e viver altas aventuras com o novo amigo, Zezé é muito hostilizado por todos da família e apanha demais, chegando até mesmo a ficar dias de cama e quase morrer por conta de duas surras...

“Dor não é apanhar de desmaiar. Não era cortar o pé com caco de vidro e levar pontos na farmácia. Dor era aquilo, que doía o coração todinho, que a gente tinha que morrer com ela, sem poder contar para ninguém o segredo.”

A pobre criança de apenas cinco anos não entende porque os adultos são tão maus. Afinal, ele já está na escola, é o melhor aluno da sala mesmo sendo o mais novinho, apronta das suas, sim, apronta, porém, as duas surras "memoráveis" foram dadas em momentos no qual ele não fazia nada demais, uma total injustiça. Esses atos começam a endurecer seu coraçãozinho e ele vai se fechando para família. 
É quando conhece o português, Manuel Valadares, um homem muito bom e gentil que apieda-se no menino e torna-se seu amigo e protetor. A relação que esses dois têm é muito bonita e tocante. Zezé até pede para ser adotado pelo amigo, pois, em sua casa, é muito maltratado e a família passa por muitas dificuldades. O momentos nos quais os dois estão juntos, são os únicos em que o menino é verdadeiramente feliz e o deixam em paz. 
Por ser um livro narrado em primeira pessoa, em O Meu Pé de Laranja Lima, vemos apenas os pensamentos e o ponto de vista de Zezé, uma criança muito sonhadora e criativa, logo, as árvores falam, tudo possui uma cor e um brilho diferente e lúdico, algo deveras bonito de se ler. Infelizmente, a vida de nosso narrador não é nada fácil e os momentos poéticos são mesclados com a triste e brutal realidade de seu convívio familiar, o que é bem revoltante para o leitor. 
Essa resenha foi escrita enquanto tocava, repetidamente, a música "Dancing with tears in my eyes" da banda Ultravox. Mesmo parecendo uma escolha estranha de trilha sonora, essa música tudo tem a ver com as emoções e sentimentos deixados pela leitura de O Meu Pé de Laranja Lima, isso porque essa obra não é um mero conto infantil. Ela é bem triste e toca fundo e de maneira pungente nossos corações. Além disso, o livro é bem curtinho, possui menos de duzentas páginas, o que nos faz lê-lo em apenas um dia. A escrita de José Mauro de Vasconcelos é maravilhosa. Ágil, bela, sem enrolação, sem obstáculos, ele escreve de uma maneira que fica difícil para a leitura, até que você chega ao derradeiro fim e só consegue chorar... Com toda certeza, O Meu Pé de Laranja Lima vai conquistar você como me conquistou.