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3 de março de 2026
O ATENEU, DE Raul Pompeia e MARCELLO QUINTANILHA



A releitura de clássicos da literatura sempre causa alguma polêmica, principalmente quando inserida na escola. Infelizmente é muito difícil para nós professores engajarmos nossos alunos nessas leituras. Por esse motivo fiquei feliz ao ver adaptações para quadrinhos desses clássicos e a primeira que li foi O Ateneu, de Raul Pompeia, adaptada por Marcello Quintanilha

Antes de trazer meu ponto de vista sobre a obra, vamos à sinopse: Sérgio, um homem adulto, relembra o tempo em que estudou nO Ateneu, internato de grande prestígio na cidade do Rio de Janeiro do final do século XIX. Contudo, essas memórias não são saudosistas, pelo contrário, são dolorosas e muito traumáticas. 

O Ateneu era um ambiente extremamente hostil, comandado por um diretor egocêntrico e cheio de figuras abusivas. Não era de forma alguma um “templo do saber”. As lembranças de Sérgio são muito tristes e trazem até momentos de quase abuso infantil tanto por parte de colegas, quanto da esposa do diretor… 

Falando agora sobre a adaptação de Marcelo Quintanilha, acredito que a leitura ficou ainda mais difícil para o jovem leitor, pois quase não há diálogos entre as personagens e os pensamentos de Sérgio são bem formais e complexos. 

Entendo que Marcelo Quintanilha não quis modificar o texto de Raul Pompeia, mas se o objetivo era atrair um público mais jovem, dificilmente será alcançado. Quanto às ilustrações, é tudo muito lindo! As cores usadas por Quintanilha dão a O Ateneu um aspecto ora onírico, ora de pesadelo, muito condizentes com o conteúdo crítico e memorialista da narrativa de Raul Pompeia

Sinceramente, gostei da leitura de O Ateneu. Só não acho que esta será tão interessante para os jovens leitores sem o devido contexto pesquisado ou explicado durante aulas de Literatura. Agora, como apoio das supracitadas, essa HQ pode ser sim uma maneira eficaz de introduzir um clássico da nossa literatura sem ser traumatizante. 


16 de setembro de 2025
BOM DIA, VERÔNICA



 

    Tal como seu título, Bom dia, Verônica começa de forma bem prosaica e corriqueira: nossa personagem-título é uma paulistana, concursada como escrivã, esposa, mãe relapsa de suas crianças, vaidosa, leonina, enfim, tudo bem normal, só que não! Verônica não trabalha de fato como escrivã, mas sim como secretária do delegado da Delegacia de Homicídios, havendo um segredo por trás disso... Em seu local de trabalho, ela se depara com todo tipo de situação escabrosa, como o caso de Marta Campos...
    Ao chegar ao escritório para mais um dia de trabalho, Verônica vê uma mulher sair desesperada do escritório de seu chefe. A moça tenta ajudá-la, mas já é tarde demais, a outra se joga da janela, tirando a própria vida, suas últimas palavras: "talvez agora ele possa me amar". Intrigada, nossa protagonista descobre que a suicida fora à delegacia a fim de prestar queixa contra um golpista que conheceu on-line, depois a dopou, roubou e ainda lhe transmitiu uma ist bem bizarra. O delegado faz galhofa da pobre e iludida mulher. Não lhe restando mais nada, ela salta. Verônica, entretanto, não a deixa à deriva e jura para si mesma que encontrará o pilantra custe o que custar. 
    A narrativa de Bom dia, Verônica sofre então um desvio. Passamos a acompanhar, através de um narrador em 3ª pessoa, uma mulher cujo nome é Janete, mas bem poderia ser Amélia, afinal, ela representa muito bem o estereótipo "bela, recatada e do lar" adicionando as suas predicações apenas um marido psicopata, viciado em matar mulheres pobres, e ela sendo sua cúmplice forçadamente, vivendo no ciclo vicioso de um relacionamento abusivo, criminoso e muito, muito perigoso. 
    Ao ver Verônica na televisão falando sobre Marta Campos, Janete sente-se encorajada a quebrar o ciclo hediondo e tenta contato com a "policial". A partir daí, ela travará uma batalha interna intensa e desleal para tentar livrar-se de Brandão, seu marido psicopata. 
Desse ponto em diante, a narrativa de Bom dia, Verônica se alterna entre capítulo de Verônica e de Janete; nos da primeira, vemos suas tentativas desesperadas de encontrar o golpista, descobrindo seus hábitos macabros e o significado das últimas palavras de Marta; nos da segunda, assistimos sua rotina, ainda mais macabra nos dias escolhidos por Brandão para torturar e matar mulheres. 
    Durante a leitura de Bom dia, Verônica foi quase impossível não associar a personagem-título à Fátima da série Califado (a qual pretendo falar aqui em novembro), ambas têm o mesmo modo de agir: ajudar a vítima colocando seus interesses em primeiro lugar, não parando para pensar o quão perigosa uma investigação "extraoficial" pode ser para quem dorme com o inimigo, ademais, ambas enganam as vítimas dizendo terem o apoio da polícia, sendo a realidade bem diferente disso. 
    Bom dia, Verônica foi uma grata surpresa. Há alguns pontos difusos na trama? Sim. Os autores, entretanto, conseguiram criar uma narrativa tão densa e eletrizante que os "defeitos" não estragam a experiência de leitura. 
    Verônica e Janete são ambas personagens ambíguas, longe de serem  as "mocinhas" de um clichê policial, elas são mulheres, em suma, reprimidas de alguma forma, tentando se libertar, e com muito medo de falhar miseravelmente...
    O desfecho de Bom dia, Verônica é agridoce, sendo coerente com tudo o que nos foi apresentado sobre essas personagens, tornando o enredo ainda mais interessante. Se você gosta de romances policiais, suspense e protagonismo feminino, leia esse livro, certifique-se, contudo, de não deixá-lo guardado em uma caixinha depois...

12 de agosto de 2025
O QUINZE

Um livro de perdas...



 

    Sem sombra de dúvidas, o livro O quinze, de Rachel de Queiroz é repleto de perdas para suas personagens, mas de muitos ganhos para a autora, que foi longamente elogiada por grandes nomes da época após sua publicação. 
    O quinze tem esse título por causa da seca que abalou o Nordeste brasileiro no ano de 1915. As população da região se viu arrasada pelas mortes dos animais, a falta de comida e de água e pelo desemprego. Rachel de Queiroz nos apresenta três núcleos de personagens que se entrelaçam, mas têm desenvolvimentos bem diferentes. 
    Primeiro, conhecemos Conceição, uma jovem e progressista professora que sonha ser mãe, contudo, não vê o casamento com bons olhos... ela é o interesse amoroso de seu primo, Vicente, um jovem rústico e trabalhador que preferiu dedicar sua vida à fazenda dos pais, do que estudar e viver na capital como a prima. Por fim, acompanhamos a dura trajetória do vaqueiro Chico Bento e de sua família. Ao contrário dos outros dois, estes não têm condições financeiras de sobreviver à seca, por isso decidem partir, contudo, em seu caminho eles encontram tanta tristeza e miséria que terão muito mais arrependimentos do que esperança. 
    Em suma, O quinze é uma narrativa bem característica do Regionalismo brasileiro, pois traz os dramas das pessoas pobres de forma bem realista, crítica e objetiva. É um romance de denúncia, sem ser panfletário. Tal como Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz também possui um estilo conciso, duro e cortante. Nenhuma palavra é usada como mera decoração, todas as frases são carregadas de sentido e suas personagens demonstram bem os tipos sociais que marcaram o início do século XX no país. 
    Por causa da variação linguística específica da década de 1930, entretanto, um leitor menos preparado pode ter um pouco de dificuldade de realizar a leitura de O quinze, pois muitas palavras caíram em desuso e ter um dicionário à mão talvez seja necessário. 
    Chegamos à conclusão de que O quinze, de Rachel de Queiroz é uma narrativa curta e simples, porém, cheia de reflexões sobre a dura sorte das pessoas pobres e de como somos completamente marginalizados e vistos como meros joguetes nas mãos de quem tem poder.  

31 de julho de 2025
Amor em 10 sobremesas, de Jess Almeida


Oi, pessoal! Samu aqui pra indicar mais um livro pra vocês😄



Aqui está o romance açucarado e crocante que eu estive procurando desde o início do ano! Esse livro tem um gostinho hipnotizante de sobremesas recém saídas do forno (e olha que eu li no Kindle). Apesar de ser curto, Amor em 10 sobremesas, da autora Jess Almeida, conta uma história marcante, não por haver grandes plot twists e situações mirabolantes, mas sim devido a sua capacidade de deixar nosso coração quentinho a cada página e provocar umas boas risadas.


A maior parte da história acontece no Café & Lilases, um café com decoração super aconchegante. A placa na parede adverte "Não possuímos Wi-Fi, pratiquem a antiga arte da conversação". Rae é a dona do lugar (nossa protagonista) e ela gerencia a loja com a ajuda de Finn, seu melhor amigo.


Tudo começa quando, certo dia, um novo cliente aparece na loja. O homem tem um ar soberano em seu terno impecável. Ele é Adam Fisher, e pede apenas um café preto, sem açúcar. Adam recusa qualquer sugestão de doces que Rae faça. Sendo assim, a jovem mulher fica intrigada: ela não aceita que aquele homem misterioso simplesmente deteste doces.


Portanto, a partir daí, Rae decide que vai testar novas receitas a cada dia, afim de descobrir qual é a sobremesa que aquele cliente gosta. E, para tanto, ela recorre ao antigo livro de receitas da mãe (um item lendário da família). Daí pra frente nós vamos acompanhando, capítulo a capítulo, as tentativas de Rae até encontrar uma sobremesa que satisfaça o paladar peculiar do Sr. Fisher.


Também vamos descobrindo mais detalhes do passado desses personagens na medida em que a história se desenrola, outro ponto que faz esse livro ser muito bom. Particularmente, eu gostei bastante das descrições de cada receita. Bem, eu amo doces, então fiquei com água na boca a cada novo capítulo. Inclusive, outro detalhe que adorei foi a ideia da autora de ter disponibilizado para nós todas as receitas em um apêndice do livro!


Portanto, se você também ama doces e uma boa história de amor, Amor em 10 sobremesas com certeza é para você.

3 de abril de 2025
Desejo Sangrento, de Ana Paula Ost


Oi, pessoal! Samu por aqui, trazendo mais uma indicação de leitura!



Não sei por quê, mas, antes de eu começar a leitura de Desejo Sangrento da autora Ana Paula Ost, a capa desse livro me remetia a um romance meio Crepúsculo, meio 50 Tons de Cinza. Juro, acho que por conta do título também, a palavra "desejo" me fez pensar que haveriam umas cenas hot, vampiros sensualizando, muita malemolência e coisa e tal💃. Mas, felizmente (pra mim), não tem nada disso e a história é super eletrizante!


Vou te contar a ideia geral da trama só pra te dar aquele gostinho. Em Desejo Sangrento, nós acompanhamos a atuação da investigadora brabíssima Leona Carvalho e seu parceiro Eduardo da Silva na investigação de uma série de casos criminais estranhos. Sim, minhas amigas e amigos, temos uma história policial, e com uma protagonista incrível! Só pra você ter uma ideia, logo na primeira cena ela já é suspensa por uns dias do trabalho por ter molhado um meliante de soco.


Sendo assim, a história começa quando a Leona é indicada para resolver um caso de assassinato bastante peculiar. A vítima, uma jovem aparentemente normal, foi encontrada em uma situação horrorosa, como se seu assassino tivesse realizado um ritual satânico ou algo do tipo. Inclusive, algumas partes desse livro trazem cenas de violência bem gráficas, então fica aqui o alerta. Com isso, a investigação vai levar Leona a descobrir todo um submundo de criaturas sobrenaturais, como vampiros, bruxas, lobsomens.


A escrita da Ana Paula Ost é super fluída, você praticamente engole o livro. O ritmo da história é frenético com bastante mistério, ação e tem até umas partes bastante assustadoras, como por exemplo a famigerada cena do banheiro (Sério! Todo mundo que leu acabou comentando😆). Inclusive, o desfecho do livro me surpreendeu em alguns momentos, como quando nos é revelado o porquê do título ser Desejo Sangrento. Quando caiu a ficha e eu entendi o motivo do "desejo", tive aquela sensação de "Uaaaau! Agora tudo faz sentido!"


Além disso, outro ponto que me chamou muito a atenção é o seguinte: geralmente nesse tipo de história nós não estamos nem aí para os humanos e só esperamos a aparição das criaturas sobrenaturais, né? Mas no caso de Desejo Sangrento isso é diferente. A Leona e o Eduardo, bem como outros humanos, são personagens bastante cativantes e, pelo menos na minha experiência de leitura, eles acabaram sendo meus personagens favoritos. É difícil não gostar dos humanos nesse livro, e pra mim isso é um ponto muito positivo.


Então, se você é um fã de histórias naquele estilo André Vianco, que mesclam ação e terror na medida certa, esse livro é pra você!


20 de março de 2025
Nossos Medos, de Mari Adriano


Olá, pessoal! Mais uma vez, Samu invadindo o espaço da dona Andréa!


Quando eu decidi pôr esse livro na minha listinha de próximas leituras, influenciado pela capa fofinha que mistura cores meio girlie, eu imaginei que a história seria um romancezinho bem água com açúcar daqueles bobinhos. Bem, eu não poderia estar mais errado.

O livro Nossos Medos é a estreia da autora Mari Adriano - e que estreia! Como o próprio título já sugere, ele aborda um tema principal: medos! E isso se desdobra em temas variados muitíssimo importantes nos dias de hoje, tais como ansiedade social, saúde mental, responsabilidade com o meio ambiente, entre outros. Tudo posto de modo muito sensível e competente.

A história tem como protagonistas a Bianca e a Isadora, duas irmãs gêmeas idênticas. Elas passaram a infância e adolescência em Valeiros, uma cidade do interior de Santa Catarina (trata-se de uma cidade fictícia, portanto não perca tempo procurando no mapa😄). Contudo, agora que são adultas, as gêmeas vivem juntas em Curitiba, no Paraná. Sendo assim, essa mudança se deve a dois fatores: no caso da Bianca, ela trabalha na redação de uma revista, além de ser uma influencer de sucesso na internet; já no caso de Isadora, a garota está na faculdade, em vias de concluir o tão sonhado curso de engenharia.

É curioso ver a dinâmica existente entre as duas. Desde sempre a Bianca é uma menina super extrovertida, que faz amizade com todo mundo, gosta de ser o centro das atenções e de estar no controle das coisas. Por outro lado, a Isadora tem uma personalidade oposta, sendo retraída, caseira, daquele tipo de pessoa que prefere passar uma tarde lendo livros em um lugar tranquilo do que aproveitando uma noite na balada.

A fobia social da Isadora é tanta, que desde criança ela vive à sombra da irmã. Sendo assim, elas chegam ao ponto de trocarem de identidade uma com a outra em várias situações. Por exemplo, a Isadora morre de medo de fazer contato com pessoas desconhecidas, então toda vez que precisa passar por uma situação social acaba mandando a Bianca ir em seu lugar, passando-se por ela.

Contudo, a Isadora não é a única "problemática" entre as irmãs. Na medida em que a história vai avançando, nós vamos descobrindo que a Bianca também tem suas próprias questões emocionais, como é o caso dos animais: ela sofre de um medo mortal de qualquer tipo de animal, seja ele qual for. E a situação se agrava quando a revista para a qual Bianca trabalha decide enviá-la para fazer uma matéria em uma fazenda. Aí o caos se instala na vida das meninas e é confusão atrás de confusão!

A forma como a autora desenvolveu tudo isso me surpreendeu bastante. Temos uma narrativa que equilibra perfeitamente situações cômicas e inusitadas com momentos de reflexão profunda acerca dos temas. Nossos Medos é um livro leve, gostoso de ler. A cada capítulo a gente fica com mais vontade de saber o que vai acontecer com as gêmeas (que são personagens super carismáticas) e descobrir como cada uma vai lidar com seus próprios medos.

Gostei bastante dessa leitura! Achei interessante como nesse livro nada é posto apenas "pra encher linguiça". Até mesmo as cenas que, num primeiro momento, parecem estar ali só pra fins de alívio cômico, logo são aprofundadas de forma a causar uma reflexão em nós leitores. E pra mim esse é um dos pontos altos da narrativa. Sendo assim, se você ainda não leu, fica minha recomendação! Tenho certeza que Nossos Medos também vai te conquistar!


8 de maio de 2019
O Guardião da Meia-Noite - Rubens Saraceni


      Há quem diga que a literatura espírita/psicografada é mera fantasia, outros, que é real e deve ser encarada de forma séria. Contudo, essas discussões pouco importam, pois você encontrará sempre uma leitura prazerosa e com muitos ensinamentos nesses livros e com O Guardião da Meia-Noite não poderia ser diferente. 
     Há muitos anos não tinha contato com a literatura espírita! Acredito ter sido a última vez em meados de 2012 ou 2013, mas sempre interessei-me muito por essas narrativas, por isso quando o Samuel contou-me o enredo de O Guardião da Meia-Noite fiquei encantada e muito curiosa. O engraçado é o fato de não ter chegado a essa obra de maneira ortodoxa. Não li o exemplar físico ou em e-book, na verdade, pela primeira vez em minha vida ouvi um áudio-livro, e a experiência foi ótima!
     O Guardião da Meia-Noite inicia com o diálogo entre dois espíritos. O primeiro, um ser da luz, tem sua atenção chamada pelo outro ao dizer-lhe ter conseguido realizar uma grande mudança. O primeiro fica surpreso, pois pensava ser isso impossível no mundo espiritual, o outro, então, decide contar toda a sua trajetória a fim de explicar melhor sua história. 
    Assim conhecemos o Barão. Ser que viveu no Brasil durante o século XVIII e era muito rico, poderoso, arrogante e cafajeste. Aproveitara-se da pureza de várias moças, era inescrupuloso... enfim, já deu para perceber que ele não era flor para se cheirar. Apesar de tudo isso, chegou um momento no qual o Barão quis casar-se e foi buscar uma noiva em Portugal. É claro que, hipócrita como era, ele desejava uma mocinha jovem e virgem; não aceitaria uma das desonradas por ele... 
     Ao voltar ao Brasil com a nova esposa, o Barão recebe seu primeiro castigo: aparentemente a moça não era virgem! Nosso narrador conclui isso porque a jovem não sangra em sua primeira noite, ela, porém, jura por todos os santos ser virgem; ele não acredita e decide vingar-se da esposa de uma forma horrível. A partir deste ato sórdido o Barão acaba criando um carma enorme para si e para todos os envolvidos no caso e, ao morrer, encontra um destino cruel e implacável... 
     Por ter perecido de repente, ele nem mesmo sabe de sua morte e sofre demais no que seria seu "Inferno pessoal", lá ele torna-se escravo de um ser das trevas e aos poucos começa a trabalhar para ele. Após algumas décadas de muita dor e agonia, o Barão conquista sua liberdade, arrepende-se de suas ações terrenas e tenta ajudar os vivos para compensar. Desse modo ele se torna O Guardião da Meia-Noite
     Não entrei em detalhes quanto ao mal causado por ele, isso porque o negócio é feio, minha gente, posso apenas dizer que o rastro de de sangue deixado marcou profundamente uma tribo indígena inteira! Por causa disso o Barão passará por muitas provações deixando o leitor sempre muito tenso porque, embora tenha começado seu relato mostrando-se um vilão, aos poucos ele se torna um anti-herói, e nós torcemos por sua vitória. 
     Além de ser meu primeiro contato com um áudio-livro, O Guardião da Meia-Noite foi também meu primeiro contato com o lado "obscuro", ou seja, o lado das "trevas" do chamado mundo espiritual, o que foi interessante e aterrador! Ademais, essa leitura trouxe muito conhecimento e muitos alertas quanto ao egoísmo, a vaidade e a ignorância e nesses tempos precisamos prestar bastante atenção às nossas ações e pensamentos para não cair nesses erros... 
    Como dito antes, não importa se você acredita ou não na veracidade da literatura espírita, aproveite essas histórias para aprender com os ensinamentos delas e os compartilhe com os outros. Isso é o que realmente importa. 

18 de janeiro de 2019
O Meu Pé de Laranja Lima - José Mauro Vasconcelos

Um livro profundamente triste e tocante 



O Meu Pé de Laranja Lima é um livro infanto-juvenil muito conhecido, não apenas aqui no Brasil, como em quase todo o Globo. A influência de José Mauro de Vasconcelos era enorme durante o século passado e muitas de suas obras foram estudadas em grandes universidades pela Europa. Contudo, foi com O Meu Pé de Laranja Lima que ele conseguiu consolidar-se e comover milhões de pessoas com essa tocante história. 
Zezé é um menininho de cinco anos de idade, muito esperto e arteiro, aprende a ler e escrever sozinho e tem uma imaginação fora do comum. Descobrimos ao longo das páginas que ele é pisciano. Se você não entende, ou não se interessa por astrologia, pode achar essa informação desnecessária, mas o menino é o completo arquétipo do signo de peixes: inventivo, sonhador, amoroso, carinhoso, solidário, bem dramático e até mesmo injustiçado... Ele sofre muito na mão dos adultos que não o compreendem e não têm paciência para suas diabruras de criança, e ainda assim permanece sendo bom e generoso com quem sofre mais do que ele. 
Ademais, a família de Zezé passa por um momento muito complicado. Seu pai perdeu o emprego, a mãe e a irmã mais velha precisam trabalhar muito para sustentar a todos, por isso a família se muda para uma casa menor e é lá que nosso protagonista conhece Minguinho, o pé de laranja lima. Apesar de ter sua imaginação fértil e viver altas aventuras com o novo amigo, Zezé é muito hostilizado por todos da família e apanha demais, chegando até mesmo a ficar dias de cama e quase morrer por conta de duas surras...

“Dor não é apanhar de desmaiar. Não era cortar o pé com caco de vidro e levar pontos na farmácia. Dor era aquilo, que doía o coração todinho, que a gente tinha que morrer com ela, sem poder contar para ninguém o segredo.”

A pobre criança de apenas cinco anos não entende porque os adultos são tão maus. Afinal, ele já está na escola, é o melhor aluno da sala mesmo sendo o mais novinho, apronta das suas, sim, apronta, porém, as duas surras "memoráveis" foram dadas em momentos no qual ele não fazia nada demais, uma total injustiça. Esses atos começam a endurecer seu coraçãozinho e ele vai se fechando para família. 
É quando conhece o português, Manuel Valadares, um homem muito bom e gentil que apieda-se no menino e torna-se seu amigo e protetor. A relação que esses dois têm é muito bonita e tocante. Zezé até pede para ser adotado pelo amigo, pois, em sua casa, é muito maltratado e a família passa por muitas dificuldades. O momentos nos quais os dois estão juntos, são os únicos em que o menino é verdadeiramente feliz e o deixam em paz. 
Por ser um livro narrado em primeira pessoa, em O Meu Pé de Laranja Lima, vemos apenas os pensamentos e o ponto de vista de Zezé, uma criança muito sonhadora e criativa, logo, as árvores falam, tudo possui uma cor e um brilho diferente e lúdico, algo deveras bonito de se ler. Infelizmente, a vida de nosso narrador não é nada fácil e os momentos poéticos são mesclados com a triste e brutal realidade de seu convívio familiar, o que é bem revoltante para o leitor. 
Essa resenha foi escrita enquanto tocava, repetidamente, a música "Dancing with tears in my eyes" da banda Ultravox. Mesmo parecendo uma escolha estranha de trilha sonora, essa música tudo tem a ver com as emoções e sentimentos deixados pela leitura de O Meu Pé de Laranja Lima, isso porque essa obra não é um mero conto infantil. Ela é bem triste e toca fundo e de maneira pungente nossos corações. Além disso, o livro é bem curtinho, possui menos de duzentas páginas, o que nos faz lê-lo em apenas um dia. A escrita de José Mauro de Vasconcelos é maravilhosa. Ágil, bela, sem enrolação, sem obstáculos, ele escreve de uma maneira que fica difícil para a leitura, até que você chega ao derradeiro fim e só consegue chorar... Com toda certeza, O Meu Pé de Laranja Lima vai conquistar você como me conquistou.

24 de novembro de 2018
Blasfêmia - Pathy dos Reis e Maria Carolina Passos


Há quase dois anos atrás, em uma conversa com alguns alunos sobre leitura, um deles disse estar lendo, na época, um romance policial chamado Blasfêmia, escrito pela youtuber Pathy dos Reis e por Maria Carolina Passos. Fiquei intrigada pelo título e pela capa sombria, beirando o macabro. Passou-se bastante tempo desde a conversa que tive com esse aluno, mas li o livro e vou falar um pouco sobre ele agora. 

[...] "Não era um bom ambiente para recomeçar, e ela sabia disso como ninguém. Não tinha mais uma família e foi em Salina que a perdeu." [...] 

Blasfêmia começa em agosto de 1997. A recém-divorciada jornalista Claire Price está voltando para casa após mais de uma década, contudo, o que seria uma chance de recomeçar, acaba trazendo de volta toda a dor e sofrimento que a fizeram partir sem olhar para trás... 
Em setembro de 1984, em uma manhã terrivelmente quente, ela preparava-se par mais um dia entediante de sua vida devotada à religião mórmon. Sem nenhuma perspectiva de futuro fora dos limites da pequena e pacata cidade de Salina, no interior de Utah, onde nada acontece, todos se conhecem, uma pequena elite burguesa faz o que quer e todos são sufocados pela religião, a jovem de vinte anos passa seus dias trabalhando como voluntária. 
Claire não sabia, mas essa seria a última manhã tranquila de sua vida... Isso porque, ao sair de casa, ela se depara com uma cena chocante: o assassinato brutal e sem explicação de seu único irmão, algo que destruiu toda a sua família... 
Ao chegar a cidade, ela vai trabalhar no jornal de seu outrora melhor amigo e começa uma investigação paralela a da polícia acerca da morte de mais um adolescente, sob circunstâncias parecidas com a de seu irmão. Enquanto isso, precisa lidar com as pessoas abelhudas, os fantasmas do passado e o estresse pós-traumático carregado de confusão e situações estranhas. E eu paro por aqui.
Foto do site oficial do livro
Para uma primeira incursão literária, Pathy dos Reis fez um bom trabalho ao lado de Maria Carolina Passos. Blasfêmia consegue ser um romance policial empolgante e instigante em vários momentos, porém há também algumas falhas na construção do mistério, já vi piores, mas elas estão lá e podem incomodar leitores mais entusiastas do gênero...
Fiquei realmente surpresa com o final da trama, pois, apesar de ser algo já visto em outros textos do gênero, não foi evidenciado durante o desenvolvimento da história, nada levava a crer que a motivação do assassino fosse a mostrada no desfecho e isso foi bom. 
Só me incomodei muito mesmo com a ambientação de Blasfêmia ser nos E.U.A. e tudo ser americanizado. Sei lá, achei estranho e ainda concordo com Renato Russo: se estamos no Brasil, vamos falar em português! Mas cada um faz as suas escolhas. Só estou dando minha opinião sobre seus resultados...
Não sei se meu parecer favorável se dá por causa de uma recente leitura frustrada, no entanto acho que gostei mesmo de Blasfêmia apesar das incoerências, essa narrativa conseguiu me fisgar e entreter, logo, recomendo aos que tem vontade de conhecer o gênero romance policial e ainda não tiveram oportunidade. 

Então é isso! Já conheciam o livro Blasfêmia? Gostaram da premissa da história? Digam nos comentários.