Se você pesquisar por Alexander Dumas, pai aqui no Livre Lendo, vai ver que eu não tenho uma opinião muito favorável ao autor, isso porque acho que ele enrolava demais em sua escrita, apesar de criar histórias mirabolantes e divertidas. Por esse motivo, protelei por muitos anos a leitura de A dama das camélias, a obra máxima de seu filho, Alexandre Dumas Filho e, para minha total surpresa, gostei bastante do texto e me vi envolvida por essa história.
Para começo de conversa, A dama das camélias é quase que um roman à clef isso porque, aparentemente, Alexandre Dumas Filho inspirou-se em sua própria história de amor tórrido com uma cortesã famosa de sua época, Marie Duplessis, amante também do compositor Franz Liszt, a qual morreu bem jovem, no auge da fama e da beleza, para criar seus protagonistas, Marguerite Gautier e Armand Duval.
A história começa com um narrador em primeira pessoa que será o ouvinte desta narrativa, ele é um carinha aleatório que foi ao leilão dos bens móveis de uma famosa cortesã de Paris que morreu jovem e repentinamente e deixou uma dívida enorme. Ele, por impulso, compra um livro do espólio: Manon Lescaut, o qual tinha a dedicatória de um certo Armand Duval… Pois bem, pouco tempo depois, nosso narrador recebe a visita do senhor Duval e assim, Alexandre Dumas Filho nos brinda com uma cena gore no meio de um romance romântico, a qual eu não estava esperando de forma nenhuma e, sinceramente, fiquei um pouco estarrecida, pois, ele não poupa detalhes em relação à situação do corpo putrefato de Marguerite…
Após recuperar-se do trauma de ver o corpo em decomposição da amada, e de ler uma carta póstuma escrita pela mesma e endereçada a ele, Armand decide contar sua história para o narrador, a fim de tentar superar a dor e a culpa de sua perda.
Armand Duval é um jovem burguês daqueles bem no estilo “burguês safado”, sabe? Tem uma profissão, pois é formado em Direito, mas nunca trabalhou na vida, vive em Paris sustentado pelo pai e por uma pensão que recebeu de herança da mãe falecida, o cara não faz nada, nada, só se diverte, contudo, um belo dia ele conhece a famosa cortesã, Marguerite Gautier, A dama das camélias, e fica completamente apaixonado por ela.
No começo, ele fica muito melindrado por sua situação financeira, já que não é rico, e pelo fato de Marguerite ser muito livre e espontânea e até mesmo tê-lo tratado de forma frívola, porém, ele está obcecado pela moça a arranja um jeito de fazer parte de seu ciclo de amizades. Marguerite, leva uma vida bem boêmia: dorme de madrugada, acorda bem tarde, bebe bastante, é cortesã, apesar de ter uma clientela seleta e nobre, e ainda por cima, sofre de tuberculose, mesmo sendo muito jovem, quando ela conhece Armand, tem apenas 22 anos e já quase morreu.
Por causa da doença, inclusive, ela conhece um certo duque, que perdeu a filha para a tuberculose, cuja aparência era muito semelhante a de Marguerite, logo, ele meio que se torna um protetor da moça, não aceitando sua condição de cortesã, por isso, sua vida boêmia é mais discreta desde então e ele não pode saber de seus clientes. É nessa situação que ela e Armand se conhecem e se apaixonam e começam seu caso.
Durante todo o período, que dura mais ou menos um ano, eles vivem um “amor” bem conturbado, pois Armand tem muito ciúmes de Marguerite e se martiriza por não ter condições de sustentá-la, mas, em momento algum, ele pensa em arranjar um emprego. Isso nunca passou pela cabeça dele, ele começa a fazer empréstimos, a jogar, mas trabalhar? Jamais. Até porque, ele precisa acompanhar a vida boêmia da amada…
Sendo bem sincera com vocês, a escrita de Alexandre Dumas Filho é muito mais fluida do que a do pai e sendo polêmica agora: nunca achei os textos de Alexandre Dumas essas pérolas da literatura que muita gente comenta por aí, na verdade, fiquei sem entender o porquê de compararem o filho de forma tão negativa. Ele entrega um romance romântico bem aos moldes dos de sua época e o faz de forma bem construída e nos entretém e nos faz refletir. Eu, pelo menos, passei muita raiva com Armand, que é um homem chato, abusivo, irritante, medíocre. Nossa, insuportável.
Já a situação de Marguerite irrita por causa da visão que a sociedade tinha de cortesãs, afinal, é dito que o duque se dispôs a pagar todas as dívidas da moça e lhe dar uma vida confortável e ela é recriminada por todos e dizem que a justificativa dela para não sair da “profissão” é porque a vida de jovem casta era muito chata, mas, gente, sendo realistas, só sendo muito doida para se colocar a mercê de um velho desconhecido e ainda por cima rico, né? Pelo menos como cortesã ela tinha a própria casa, escolhia os clientes, tinha uma certa liberdade. Eu entendo Marguerite, ela se via presa, encurralada por todos os lados, por isso o ciúmes e o egoísmo de Armand são tão enervantes! Ele não sabe quem ela realmente é, ele tem apenas uma idealização e quando ela deixa de corresponder às expectativas dele, ele simplesmente aceita e vai embora, voltando apenas ao saber de sua morte.
A dama das camélias é uma livro bem escrito, mas com uma visão bem machista das mulheres e de relacionamentos amorosos, seria muito bom dizer que é algo específico da época, mas, até hoje vemos homens querendo ditar o que é uma mulher “de valor”, e como mulheres perdem esse “valor” rapidamente e logo são deixadas no esquecimento.


É muito triste ver que um livro que deveria refletir apenas a época em que foi escrito, na verdade reflete também na situação da mulher de hoje. Somos mais livre sim, conquistamos mais espaço sim, mas a que preço? Ainda temos e não são poucos, homens que querem nos definir, nos encurralar como seres de menor valor e quando não conseguem querem nos fazer desaparecer, de todas as formas possíveis. Esse livro, diante de tantas situações que aparecem no nosso dia a dia, é um retrato mais que atual, triste mesmo.Uma boa semana pra você.
ResponderExcluirOlá,
ResponderExcluirLembro que gostei bastante dessa leitura na época que li. Fiquei torcendo pela Marguerite, mas uma época difícil mesmo para as mulheres, ainda ela super julgada a todo momento. Mas acho que me emocionei mais com Lucíola, do José de Alencar... não sei hahaha
Quero tanto um tempinho pra reler. Essa edição está linda, mas ainda não rolou de comprar. hahaha
Rindo aqui com as reclamações do Dumas Pai. Nunca li nada dele, mas dá preguiça só de olhar.
p.s.: eu nunca consegui usar AdSense em nenhum dos blogs que já tive até hoje. As vezes acho até livramento pq alguns blogs ficam lotados e não dá pra ler nada. Então sigo só com os links da Amazon mesmo.
até mais,
Canto Cultzíneo
Oi!
ResponderExcluirEu adoro o trabalho do Alexandre Dumas em Os Três Mosqueteiros, mas acompanhar outros trabalhos dele acho bem complicado, coloquei como meta ler O Conde de Monte Cristo esse ano e está sendo uma saga. Que legal que o filho tem outra vibe.
https://deiumjeito.blogspot.com/