29 de setembro de 2026
O BECO DAS ILUSÕES PERDIDAS, de William Lindsay Gresham


Um belo dia estávamos o Samu e eu em uma livraria, quando bati o olho em um livro cuja capa me chamou muito a atenção, nunca tinha ouvido falar de O beco das ilusões perdidas, ou de seu autor, William Lindsay Gresham, contudo achei a figura da cartomante sem olhos e todo aquele vermelho muito impactantes; mas o que me fez querer lê-lo mesmo, foi o fato de haver a informação de que a obra inspirou Guillermo Del Toro a produzir um longa homônimo e como sou fã desse diretor e de sua estética, levei o livro. 

Como não poderia deixar de ser, demorei anos para realizar essa leitura! Gosto muito de Tarô e também estudo e coleciono, por isso, esse ano, decidi finalmente ler O beco das ilusões perdidas e entender do que se trata esse clássico norte-americano. Basicamente, um narrador em terceira pessoa vai nos contar a trajetória de vida de Stanton Carlisle, ou só Stan, que começa sua fase adulta, aos 20 anos, mais ou menos, trabalhando em um circo de variedades como um faz tudo: ele ajuda na bilheteria, na organização das atrações, na montagem e desmontagem do circo, tudo ali o fascina e encanta, só tem uma “atração” que ele não consegue entender e lhe causa repulsa, O Selvagem, um homem alcoolista, praticamente escravizado, que finge ser uma fera selvagem, vivendo na imundice, em troca de algumas garrafas de bebida, um pouco de comida e um lugar para dormir. 

Stan fica horrorizado ao fazer essa descoberta sobre a natureza do “ selvagem”, mas, ele é jovem e cheio de ambições, logo, rapidamente ele se interessa por Zeena, uma mulher mais velha que comanda uma apresentação de clarividência. É claro que tudo é armado, todas as atrações do circo o são, mas essa em específico faz a mente do rapaz brilhar e ele decide que quer fazer parte desse número. O primeiro empecilho, porém, é o fato de Zeena ser casada, algo que, acidentalmente, Stan “resolve” tornando-a viúva, o segundo empecilho, é que a própria Zeena já não quer mais trabalhar com isso e diz ao rapaz que ele precisa arranjar uma garota jovem, bonita, com a mente mais ágil do que a dela. Zeena quer se aposentar. 

É assim que conhecemos Molly, uma jovem lindíssima e totalmente sozinha no mundo, devotada a figura paterna que morreu de forma trágica, ela é a vítima perfeita para o ambicioso e já não muito escrupuloso Stan. Juntos, eles começam um show no Teatro de Variedades, o Vaudeville, que dá tão certo que eles começam a se apresentar em lugares maiores e até a chamar a atenção da nata da sociedade. Em uma dessas ocasiões, Stan fica indignado com o modo como é tratado pelos ricos e decide vingar-se enganando eles em seu próprio jogo. 

A partir desse ponto de O beco das ilusões perdidas, Stan decide tornar-se uma sacerdote espírita e começa a criar muitas fraudes espiritualistas e a se aproveitar do desespero e da saudade de pessoas ricas. Ele consegue muito dinheiro e até uma propriedade fazendo isso, mas ele quer mais, ele sempre quer mais. Molly, no entanto, está cansada de ser feita de boba e com medo de que alguém descubra os truques mirabolantes e eles sejam presos, ou pior, como aconteceu com seu pai, assassinados.

Começando a sofrer por causa do estresse de levar essa vida dupla, às vezes tripla de sacerdote bondoso e idôneo, companheiro sem escrúpulos e de ser Stan, o agora homem quase na meia-idade, decide consultar-se com uma psicóloga especialista em parapsicologia, a Doutora Lilith Ritter e é a partir daqui que a vida dele vai virar de cabeça para baixo literalmente, pois, o antes manipulador de multidões, será agora manipulado e colocado no bolso por alguém que entende de verdade a psique humana e já conseguiu desnudar completamente a dele e todos os seus traumas. É nessa parte que o livro se torna frenético, porque queremos saber qual será o fim de Stan; e o porquê do título O beco das ilusões perdidas, já aditando a vocês: é bizarro e, até certo ponto, satisfatório. 

Se eu não tivesse lido O evangelho segundo Jesus Cristo, a narrativa de William Lindsay Gresham seria bem mais encantadora e surpreendente, ainda assim, o autor conseguiu me envolver com seu estilo ora polifônico, ora linear, tornando a narração bem equilibrada e instigante do início ao fim. É claro que há alguns pontos negativos em O beco das ilusões perdidas, como o fato de sermos apresentados a histórias de personagens que não serão desenvolvidos depois, mas gostei dessa leitura. 

Agora, falando sobre a simbologia, também achei muito pertinente o modo como William Lindsay Gresham organiza sua obra, pois cada capítulo é uma carta do Tarô clássico de Waite-Smith e o que me chamou muito a atenção foi como a jornada de Stan pelo Tarô se assemelha a jornada do louco, a qual estudei em O tarô e a jornada do herói, de Hajo Banzhaf, contudo, ao contrário do Louco que termina a jornada com uma evolução, nosso protagonista vai terminar sua jornada quase que exatamente como começou, só que pior… Com certeza, O beco das ilusões perdidas é um livro que instiga e fascina ao mesmo tempo que nos deixa horrorizados com seu desenvolvimento. 


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